Os relatórios de órgãos oficiais, como a ONU (UNHCR, 2016), indicam que existem no mundo mais de 65 milhões de refugiados e deslocados, pessoas que, por situação de insegurança, principalmente política, precisam deixar suas casas e viver em outros lugares em troca de proteção física e emocional.

A questão dos refugiados tem sido tema de debate em muitos países, envolvendo as mais variadas lideranças na busca por soluções que possam garantir o apoio humanitário a todos os que têm sua vida ameaçada, mas sem prejudicar a estabilidade interna dos países.

A vida num campo de refugiados é árdua, os recursos são escassos, e a falta de perspectivas rouba as esperanças de que um dia se possa resgatar aquilo que tornava viva a existência: a casa, a vida em família, o convívio com os amigos, os costumes, a religião, a liberdade etc. A ONG Médicos sem Fronteiras refere que desses refugiados, 3,7 milhões de crianças e adolescentes não frequentam escolas. Eles crescerão em deslocamento forçado e se tornarão adultos que “não pertencem”.

Fico pensando em quantas perdas temos presenciado silenciosamente, quanta beleza, quanta capacidade e quantos dons maravilhosos têm sido desperdiçados nesses lugares e em tantos outros onde a vida humana é colocada em segundo plano. Quantas respostas, quantas soluções, quantas ideias, quanta arte, quantos valores simplesmente se perdem por causa do interesse egoísta de alguns poucos.

Embora precários, os campos de refugiados são o único lugar seguro para esses milhões de pessoas; voltar para casa significa para muitos uma sentença de morte. E assim, sem as lembranças de sua terra natal, uma nova cultura vai sendo formada para esses cidadãos sem pátria.

A história de Ester, encontrada no livro da Bíblia que leva o nome dessa jovem judia, acontece numa realidade não muito diferente dessa. Ela se faz no exílio, longe de sua terra natal, vivendo como parte de um povo escravizado, para quem a manutenção da cultura era um exercício de resistência realizado com dificuldades e mesmo sob risco. Mas Deus usa o improvável para fazer o impossível, e Ester é um exemplo disso.

O povo hebreu havia se afastado de Deus sob o comando de reis que simplesmente ignoraram os erros de seus antecessores e adotaram práticas pagãs abomináveis, trazendo sobre si e sobre o povo a correção divina. O Reino de Judá, no reinado de Joaquim, fora levado como escravo pelo rei da Babilônia, Nabucodonosor. Anos mais tarde a Babilônia foi dominada por Ciro, num reinado unificado de Medos e Persas.

O povo hebreu, de onde surge nossa protagonista, existia nesse contexto de subjugação, escravos de escravos, sob o constante risco de limpeza étnica, lutando com todas as forças para preservar suas raízes culturais e sua essência como povo escolhido. Ester, personagem central da história, é uma jovem mulher, órfã de pais e expatriada, que se torna rainha dos Medos e Persas.

Há dois adjetivos sobre Ester que chamam muito a atenção: ela era “atraente e muito bonita” (Ester 2:7). Numa primeira leitura do texto isso pode parecer uma redundância, uma repetição desnecessária, dois adjetivos que têm o mesmo significado, mas, na verdade, não é isso.

Ser bonita é algo que, infelizmente, não depende da própria pessoa; a beleza física é um atributo genético, recebe-se dos pais e demais ancestrais como uma herança fisiológica. Podemos melhorar a aparência com exercícios, uma dieta correta, com a ajuda dos cosméticos e em última instância, com cirurgias reparadoras, mas não podemos alterar nossa imagem por completo.

Ser atraente, por sua vez, vai além de ser bonita, tem relação com a forma como nos relacionamos com a vida e com as pessoas sem ferir nossos valores. Pessoas atraentes são aquelas que chamam a atenção dos outros para si, sem que tenham que fazer qualquer esforço ou utilizar qualquer artifício para isso, chamam a atenção por causa de sua personalidade e comportamento. Então, você e eu podemos celebrar este fato! Para ser atraente você não precisa de atributos genéticos, isso pode ser aprendido!

A jovem Ester era bonita e atraente e por causa disso foi levada ao palácio do rei Xerxes, o poderoso rei da Pérsia, soberano sobre cento e vinte e sete províncias (o que corresponderia a países ou nações). Ester, como outras belas jovens, estava sendo recrutada para, após um longo preparo de beleza, concorrer à aprovação do rei, substituindo, enfim, a rainha Vasti, afastada do cargo por não atender aos caprichos do rei (Ester 2:4).

Você consegue imaginar o ambiente competitivo no harém que guardava aquelas moças? Jovens de todas as províncias estavam ali competindo para ser a mais bela, a mais sedutora, a mais desejada pelo rei, mas Ester não sucumbiu a esse ambiente de competição e aos padrões de beleza daquela cultura. Ester sabia que lugar a beleza devia ocupar em sua vida. Aquela linda jovem, instruída por seu primo, provavelmente já tinha conhecimento deste texto no livro de Provérbios: “Como anel de ouro em focinho de porco, assim é a mulher bonita, mas indiscreta.” (Provérbios 11:22)

Muitos homens notaram as qualidades especiais da jovem Ester e vemos isso ao longo do livro. Primeiramente, destaca-se o seu primo Mardoqueu. Ele é um importante personagem no livro e se tornou um dos heróis do povo judeu. Mardoqueu assumiu Ester como filha quando ela se tornou órfã dos pais. Ele acompanhou Ester em todo o seu processo até chegar a ser rainha e foi para ela mais que um cuidador, tornou-se um verdadeiro pai, mentor e amigo.

Ester, por sua vez, retribuiu o cuidado recebido mantendo-se firme àquilo que seu primo lhe havia ensinado. Uma vez dentro do palácio, não se deixou levar por um senso de independência, manteve-se fiel às orientações de Mardoqueu e não revelou a que povo pertencia, o que poderia ser um grande risco para ela, por sua condição política e social. A fidelidade é um dos componentes de uma personalidade atraente, como lemos no livro de Provérbios: “Que o amor e a fidelidade jamais o abandonem; prenda-os ao redor do seu pescoço, escreva-os na tábua do seu coração. Então você terá o favor de Deus e dos Homens e boa reputação.” (Provérbios 3:3 e 4)

A jovem Ester (Hadassa era seu nome original no hebraico) chamou também a atenção dos servos ou soldados que estavam recrutando as moças. Veja, não se tratava de um concurso de beleza, as jovens não podiam se candidatar ao processo, elas tinham que ser escolhidas. É provável que, nesse primeiro momento, Ester tenha sido notada por sua beleza física, mas é verdade que um caráter ruim não consegue se esconder por muito tempo só na beleza, e isso garantiu que muitas jovens fossem desclassificadas. E aqui há um lembrete importante para cada jovem e mulher de valor: Você pode não saber, mas está sendo notada agora mesmo!

Ester, já no palácio, na ala destinada às postulantes, chama a atenção de um outro homem influente, Hegai. Este homem era encarregado de guardar e preparar as jovens para o dia em que fossem escolhidas para estar na presença do Rei. O texto bíblico, em Ester 2:9, diz que “a moça o agradou e ele a favoreceu”. Ester não era uma mulher prepotente ou arrogante, vemos isso nos entremeios de sua história. Uma orientação importante encontrada no livro de Provérbios nos diz que “a mulher bondosa conquista o respeito” (Provérbios 11:16). Hegai foi conquistado pela bondade de Ester!

Veja, Hegai recebia lindas mulheres todos os dias no harém para o processo de triagem. Mas foi a combinação de “beleza e comportamento atraente” que o fez agradar-se de Ester e, por causa disso, ela recebeu um tratamento especial. Pense nisso, a jovem ganhou a companhia de sete cuidadoras e todas ficaram alojadas no melhor lugar do harém. Um ano de spa com sete especialistas para fazer massagem, maquiagem, unhas, cabelo, banhos especiais, aulas de sedução e etc. é um sonho para todas nós, não é mesmo? (talvez um ano seja muito para você, vamos reduzir isso para 11, 10 meses?).

Hegai se tornou um outro mentor para Ester e foi estratégico para o desfecho dessa história narrada na Bíblia. No dia de apresentarem-se ao rei, as jovens tinham o direito de utilizar qualquer roupa ou joia que quisessem para se fazerem atraentes e agradarem ao soberano. Ester, conforme diz o texto bíblico, “ (…)não pediu nada além daquilo que Hegai, oficial responsável pelo harém, sugeriu”. O responsável pelas jovens entendia muito de mulheres, porque cuidar do harém do rei era o seu trabalho, mas ele entendia muito sobre o rei também, trabalhava para o poderoso soberano e sabia seus gostos, suas fraquezas e tudo o que não se devia fazer em sua presença, o que fazia de seus conselhos um recurso importante nas mãos de Ester.

Isso nos chama a atenção para algo essencial, mulheres: não é o excesso de “aparatos bélicos”, vamos colocar isso em palavras mais claras, não é o excesso, o exagero que a tornará mais atraente. Precisamos ser honestas e assumir que tem havido excesso nos decotes e no comprimento das roupas, no uso das maquiagens, estamos indo mais para “Madona” do que para “Ester”; é muito anel de ouro em focinho de porco! O bom senso e o equilíbrio precisam ser a marca de beleza na mulher cristã.

Na verdade, Ester podia escolher o que quisesse, era a chance daquela “refugiada”, expatriada, aquela pobre escrava sair do anonimato, mas ela preferiu seguir os conselhos de Hegai, e o texto diz que ela “causava boa impressão a todos que a viam” (Ester 2: 15). Lembre-se, beleza é um atributo herdado, mas ser atraente é um atributo conquistado e tem relação com o caráter.

Finalmente, Ester chama a atenção do Rei Xerxes, ou Assuero para os hebreus. O texto diz que o rei “gostou mais de Ester do que de qualquer outra mulher; ela foi favorecida por ele e ganhou sua aprovação mais do que qualquer das outras virgens”. Veja, ele não desgostou das outras, o que aconteceu é que Ester superou todas as demais, ela conquistou o rei de todas as formas possíveis com que uma mulher pode fazê-lo. Aquela jovem refugiada recebeu honrarias reais e se tornou a mulher mais importante nas 127 províncias da Pérsia, tornou-se importante para o seu povo e para o povo de quem se tornou rainha.

A fidelidade, a prudência e a coragem faziam parte desse pacote de “beleza e encantamento” da nossa jovem refugiada. A história da Ester, que salva seu povo das mãos do ambicioso e mau-caráter Hamã, que ajuda o primo Mardoqueu a se tornar um dos líderes do povo judeu e membro do governo da Pérsia, nos mostra uma mulher corajosa, prudente e com forte senso de missão de vida. “Quem sabe se não foi para um momento como este que você chegou à posição de rainha.” (Ester 4: 14)

Num momento de grande crise, o ápice da história narrada nesse livro, vemos uma mulher poderosa escolher a humildade como grande fonte de força e sabedoria. Antes de apresentar-se ao rei, agora como rainha, para solicitar seu favor, Ester reúne-se a seu povo num grande jejum. Por três dias e três noites, aquela rainha se prostra com o seu povo em sinal de humildade, para buscar a força que vinha do seu Deus.

Ester conseguiu, com a ajuda de Deus e com a orientação de seus mentores, conquistar o seu maior objetivo, salvar o seu povo e possibilitar a continuidade de sua história. Ela ocupa na história do povo de Israel um lugar de importância, não simplesmente por ter sido uma linda rainha, mas por ter sido uma mulher sábia o suficiente para agregar à sua beleza a força de um caráter atraente.

Essa é uma história que vale a pena ser lida muitas vezes, é um dos meus livros favoritos na Bíblia. Você pode mergulhar nos detalhes narrados por um grande “contador de histórias”, nosso querido pastor, Dr. Charles R. Swindoll, no livro “Ester- uma mulher de sensibilidade e coragem” (Ed. Mundo Cristão).

A história de Ester nos desafia a pensar que, para Deus, a pessoa mais insignificante aos olhos dos poderosos tem grande valor e pode cumprir um papel extraordinário para a humanidade. Penso nas muitas “Hadassas” que se encontram limitadas por sua condição política, social e mesmo física, e gostaria que chegasse a cada uma delas essa mensagem: “Cause a melhor impressão por sua beleza e modo de ser”.

Mas, essa é uma mensagem para todas as mulheres, não importa em que condições estejam – solteiras, compromissadas, casadas, com filhos ou sem filhos, jovens ou mais maduras, enfim, mulheres. Todas nós somos desafiadas pela leitura desse livro histórico da Bíblia, cuja mensagem impactante nos mostra que o lugar e o papel da mulher está posto por Deus. Quem somos conta muito para o nosso Deus, que tem nos colocado em lugares e em situações estratégicas para sermos canal de benção e de redenção.

Se você não é a mais bonita fisicamente, isso não importa. Você pode deixar transparecer sua beleza por seu caráter e por sua fidelidade a Deus. Lendo Ester, você aprenderá, como eu tenho aprendido, a valorizar o que realmente importa e a acreditar que podemos influenciar nossa cultura, como fez a linda rainha Ester.

__________________

Ieda Bochio © 2017

Ieda Bochio

Ieda Maria Siebra Bochio é membro do Ministério Razão Para Viver, atuando na área de capacitação de lideranças e organizações cristãs, juntamente com seu esposo, Pr. Fernando Bochio. Partici...

Ver todos os posts

Posts relacionados